#

A

B

C

D

E

F

G

H

I

J

K

L

M

N

O

P

Q

R

S

T

U

V

W

x

Y

Z

# A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

O Panda do Kung Fu

Renato Carreira

Um dos problemas das grandes produções de animação é que, por vezes, tamanha é a preocupação em aplicar ao máximo todas as potencialidades da tecnologia e em criar bonecos enternecedores que darão brindes chamativos para os Happy Meals da McDonald's, que se esquece o resto. E o resto será uma história com grau de complexidade que consiga agradar a espectadores de idade superior a três anos, um enredo minimamente racional, personagens com alguma profundidade e situações que suscitem uma gargalhada ocasional e não apenas gemidos de "oooooooooh, que fofinho". Felizmente, O Panda do Kung Fu tem tudo isto e também o tal aproveitamento das imensas potencialidades tecnológicas ao dispor dos animadores dos nossos dias. Jack Black (a voz do panda Po) e Dustin Hoffman (a voz do mestre Shifu assumem o essencial da empreitada, secundados por um elenco de peso (Angelina Jolie, Jackie Chan, Lucy Liu e os comediantes Seth Rogen e David Cross), ainda que devam ter sido pagos à palavra, visto que nenhum deles diz mais do que meia dúzia de frases durante o filme todo. Quem optar pela versão dobrada, poderá deliciar-se com as vozes de Marco Horácio, José Raposo, Fernanda Serrano e Joaquim de Almeida. No fundo, é como comparar uma ária de Verdi a um peido.

Classificação:

Topo

Brincadeiras Perigosas

Renato Carreira

Qual será o propósito de pegar num dos melhores e mais originais filmes da década de noventa e fazer um remake, passados apenas onze anos, assinado pelo mesmo realizador, com a mesma história, a mesma sucessão de eventos (ao milímetro), os mesmos diálogos, os mesmos cenários, os mesmos planos, a mesma banda sonora, o mesmo guarda-roupa e actores parecidos? As diferenças mais notórias (salvo falhas de memória) será a consola PSP que o filho do casal segura no início do filme e que ainda não existia em 97, o telemóvel mais moderno e o cão da família que, se bem me lembro, era um pastor alemão no original. Ah. E, claro, o facto de o filme se passar nos Estados Unidos e não na Alemanha (ainda que a paisagem envolvente seja uma cópia quase perfeita) e de ser protagonizado por actores americanos e não por actores alemães e austríacos, sendo que os primeiros, por maiores que sejam os seus méritos, abdicam de representar para arremedar o elenco original, tão próxima é a colagem. Ainda que não se possa dizer que é um filme mau, mesmo sabendo a comida requentada para quem conhece o original, mantém-se a incredulidade. Porquê? Apenas porque alguém achou que o público americano é alérgico a filmes falados noutras línguas que não a sua e entendeu que deviam ter oportunidade de ver este? Perfeitamente aceitável. Só que nós não temos nada a ver com o assunto.

Classificação:

Topo

Houdini - O Último Grande Mágico

Renato Carreira

O Houdini de Death Defying Acts é um homem que se aborrece facilmente. Viajar constantemente pelo mundo, ser acorrentado pelos pés debaixo de água ou com um colete de forças vestido, emergindo triunfante como o maior escapista de todos os tempos acaba por cansar e não admira que o pobre homem procurasse distrair a mente com outros assuntos menos aborrecidos. Por exemplo, com a ambição de provar ou negar a possibilidade de contactar o espírito dos mortos através da oferta de uma recompensa aos médiuns que a isso se prestassem. Para esse fim, recorre ao estratagema de encerrar num cofre um envelope lacrado contendo as últimas palavras que a sua mãe lhe dirigiu e esperando que alguém lhas consiga repetir. A candidata seleccionada para a proeza é Mary McGarvie (Catherine Zeta-Jones), uma vidente, embusteira e dançarina exótica, que costuma actuar em palcos de variedades com a filha Benji (Saoirse Ronan) como assistente. Estariam reunidas as condições para um thriller pseudo-sobrenatural emocionante, uma espécie de novo The Prestige, mas Gillian Armstrong não se quis ficar por aí. O ilusionista obcecado pela mãezinha e a vigarista acabam por se apaixonar e os diálogos melosos sucedem-se com a rapidez de truques de mão. Guy Pearce é competente como Houdini, sem fazer esquecer o desgraçado protagonista de Memento ou o/a Felicia de Priscilla, Rainha do Deserto. Catherine Zeta-Jones está perfeita no papel de Catherine Zeta-Jones, mesmo com o sotaque escocês, e a jovem Saoirse Ronan, que tão bem esteve em Expiação, consegue irritar apenas ligeiramente como uma espécie de Oliver Twist de saias (mas com calções e sem ser órfã).

Classificação:

Topo

Mal habituados

(O Acontecimento)

Renato Carreira

M. Night Shyamalan é das presas mais apetecidas pela crítica cinematográfica americana (e pela crítica internacional, que segue a primeira). O motivo é compreensível. Depois de dois ensaios obscuros, o realizador completou trinta anos de idade com um dos filmes mais cativantes das últimas décadas (O Sexto Sentido, obviamente). O trabalho seguinte (O Protegido), com a responsabilidade de confirmar ou negar o talento prometido, conseguiu satisfazer os fãs conquistados e, depois da estreia de Sinais, começou a falar-se num novo Hitchcock. Mas o estado de graça não podia durar para sempre. Com A Vila e A Senhora da Água, títulos inferiores mas ainda muito acima da média, o veneno destilado seria suficiente para levar realizadores menos confiantes a mudar de ramo. Shyamalan não o fez e traz-nos agora O Acontecimento. Ainda que os momentos de suspense continuem presentes, o final não deixará ninguém boquiaberto e não será certamente filme capaz de calar quem lhe tem apontado o dedo. No entanto, os seus maiores defeitos são essencialmente dois: ser uma obra mediana de um grande realizador e não ser O Sexto Sentido. Quem conseguir viver com isso, não dará o preço do bilhete por mal empregue.

Classificação:

Topo

Ele vai-te morder... olha, já mordeu!

([REC])

Ana Trindade

[REC] é um bom filme de terror! Repete o registo «agarrei na câmara e tudo aconteceu à minha volta». Apesar de, em alguns momentos, termos a noção de que o enredo parece familiar ("Olha lá, isto não parece o Resident Evil?") e de algumas sequências serem mais do que esperadas ("É que estava mesmo a ver-se que era ela"), ninguém discute que ao mesmo tempo sentimos a séria ameaça de ser mordidos a qualquer instante ("Importas-te de parar de dar saltos na cadeira?!").

TUdo se passa num típico edifício de Barcelona, muito de noite. Quando deveriam estar todos a dormir, uma velha grita desalmadamente. Alguém refere que ela mora com gatos, se bem que não se avista um ao longo de todo o filme.
Depois disto, é um desenrolar rápido de mordidelas, puxões, cacetadas, marretadas, corridas escadas acima e corridas escadas abaixo.

No fim, descobre-se que a culpa de toda esta azáfama é de uma família de portugueses.

[REC] arrecadou o Grande Prémio da última edição do Fantasporto. E pelos saltos na cadeira - os meus sustos e os dos outros - leva uma salva de palmas. Há muito que não se via um filme de terror assim.

Classificação:

Topo

Então Onde Estás?

(Não Estou Aí)

Renato Carreira

Em Velvet Goldmine, Todd Haynes pegou em David Bowie (o mito e não o cantor real), torceu-o, retorceu-o, ajeitou as pontas e criou uma das biografias cinematográficas mais originais de sempre, temperada com uma pitada justa de ressentimento de fã. Não Estou Aí segue de forma quase exacta a mesma receita, com a nuance da multiplicação de pontos de vista e a escolha feliz de actores inesperados para interpretar facetas diversas do artista. Ainda que, à primeira vista, saiba a refeição requentada, não é a reutilização do molde que torna o filme menos bom. Apenas se estranha o prolongamento exagerado de alguns segmentos, que nem o excelente desempenho do elenco conseguirá justificar. Como não há duas sem três e porque parece que o realizador faz questão de nos reinventar os grandes nomes da música, ficamos à espera do senhor que se segue.

Classificação:

Topo

"I need the old Blade Runner. I need your magic"

(Blade Runner)

Gonçalo Trindade

Há certos filmes que, quando vistos numa sala de cinema, são uma experiência verdadeiramente mágica. Filmes que estimulam tanto a vista como o coração, que crescem e penetram no espectador quando vistos naquele grande ecrã.
Ver "Blade Runner" numa sala de cinema foi, de facto, uma experiência espectacular. Das melhores que jamais tive (juntamente com o "The Fountain", "Citizen Kane", e "Os Sete Samurais", entre outros). Vi-o pela primeira vez num VHS de qualidade duvidosa, na versão Director's Cut, e adorei. Agora, visto numa sala de cinema, adoro-o ainda mais. Não ficou um filme melhor (não notei assim tantas mudanças, neste "The Final Cut"), apenas o experienciei de forma diferente. E apercebo-me agora, mais que nunca, da forma incrível como a sua qualidade perdurou ao longo do tempo. Continua uma Obra-Prima.
E será, para sempre, uma Obra-Prima. Jamais haverá algo igual. Jamais será um filme esquecido... jamais será como "todos aqueles momentos, perdidos no tempo... como lágrimas na chuva" (dos melhores momentos cinematográficos que jamais vi até hoje).
Uma experiência simplesmente espectacular, e é inadmíssivel que exista apenas UMA cópia para todo o país.

Classificação:

Topo

Mentir com todos os Dentes

(Entrevista)

Ana Trindade

Toda a acção se passa num raio de quatro quarteirões, com apenas três mudanças de cenários. O ambiente do filme é intenso e explora a capacidade dos dois intervenientes mentirem com quantos dentes têm na boca.

Esta é a história de um jornalista à beira do colapso profissional que ainda se julga importante e não percebe porque lhe calhou a aborrecida missão de entrevistar uma actriz de série B "best known for who she sleeps with".

Quem mais tenta enganar, acaba enganado - só tem noção do que lhe aconteceu a poucos segundos do rolar dos créditos finais.

Para quem, como eu, pensava na Sienna Miller ‘as best known for who she sleept with’, pelos anúncios das calças não sei do quê e pelo pequeno papel no Stardust, este filme é uma surpresa. Assim como foi uma surpresa quando se descalça e revela as grossas meias brancas… reforço grossas.

Pessoalmente tenho uma certa afinidade com o Mr.Pink, protagonista e realizador. Sempre gostei dele. Está no meu coração.

Como já referi, é um filme intenso. Exige um certo grau de atenção ao enredo. Não me escapou o pormenor do quarto sanitário decorado com pinups.

«Entrevista» é o primeiro dos filmes do projecto Triple Theo.

Resumindo este projecto: Theo Van Gogh tem uma ideia. Theo Van Gogh é assassinado. Sem Theo Van Gogh ideia não avança. Produtor e parceiro avançam com ideia. Ideia avança com convites a realizadores: Steve Buscemi, Stanley Tucci, John Turturro. Steve Buscemi já está, Stanley Tucci é o próximo. John Turturro vai começar a gravar em breve.

Sim, Theo van Gogh partilha a árvore genealógica com o Van Gogh que pintava.

Classificação:

Topo

Mantenham-se bem afastados

(O Tesouro Encalhado)

Gonçalo Trindade

Sou um jovem de 18 anos. Como qualquer jovem de 18 anos, dou-me com outros jovens rapazes e raparigas de 18 anos. E se há algo que descobri, é que hoje em dia jovens da minha idade não... não levam o cinema muito a sério. Não sabem quem foi Orson Welles, não sabem quem foi Truffaut... simplesmente vão ao cinema para passar um bom bocado. Ora bem... é por isso normal que, por vezes, quando ocorrem saídas de grupo, os meus jovens amigos escolham filmes que... enfim, que não são propriamente de boa qualidade. E eu até nem me importo... muito. Também posso ir ao cinema para me divertir um bocado, para desligar o cérebro. Afinal de contas, eu sou o tipo que até gostou do "Transformers" e do "Hitman" (...e subitamente, o blogue perdeu a pouca credibilidade que tinha...).

Mas meus amigos... desta vez foi indescritível. Previsível, sem a mínima graça, desprezível... o cérebro nem liga nem desliga, fica numa espécie de coma. Sejamos honestos, falar mal de um filme é bom. Dá prazer. Mas eu até me considero uma pessoa justa, e falo mal de um filme apenas quando considero o filme verdadeiramente... mau. E este é um dos casos.

"Fool's Gold" é uma "coisa". É... enfim, é mesmo uma "coisa". Além de ser possivelmente o pior filme que jamais vi numa sala de cinema (ainda que raramente veja maus filmes numa sala de cinema... tento ser selectivo, que o dinheiro e tempo escasseiam). Talvez seja eu que não tenha sentido de humor, não sei. Talvez tenha alguma coisa contra comédias românticas... ou contra o Matthew Mc-qualquer coisa, não sei. Mas houve mesmo alturas em que pensei em cometer suicídio com a palhinha do copo da pepsi.

"Fool's Gold" é dinheiro. Pega em todos os clichés existentes, e junta-os a todos num filme feito sem o mínimo amor. Até os próprios actores parecem lá estar mesmo só pelo dinheiro (oh Donald Sutherland... estavas assim tão desesperado? Enfim, pelo menos não és como o John Voight que entrou no "Bratz"...).

Não tem graça. Não capta minimamente a atenção. Não tem nenhum pormenor interessante que o salve. Nenhuma cena minimamente engraçada ou interessante. É um desastre. Um verdadeiro desastre. Péssimo. Além de péssimo. Se o Uwe Boll tivesse um irmão atrasado mental, e se esse irmão começasse a fazer comédias românticas... um dos seus filmes seria certamente este.

"Fool's Gold" não é um filme. É... não sei, é outra coisa qualquer.

E lição aprendida: em saídas de grupo, devo bater mais o pé na escolha do filme. Ainda que desta vez não podia fazer grande coisa... usaram o trunfo do "Gonçalo cala-te, que foi por tua causa que fomos todos ao cinema ver o "A Bússola Dourada"...". Mas ainda assim, esse filme foi bem melhorzinho...
E já agora... e vocês? Qual foi o pior filme que viram numa destas saídas em grupo?

Classificação:

Topo

Michael Myers 2.1

(Halloween)

Renato Carreira

Há dois filmes diferentes nesta nova recriaçao da saga Halloween. Os dois primeiros terços são preenchidos com a tentativa frustrada de Rob Zombie, metaleiro consagrado e visionário do horror, de abordar a infância de um dos assassinos psicopatas mais perturbadores do grande ecrã e de justificar de alguma forma as suas acções com um enredo previsível e diálogos banais. No terço final, a abordagem psicológica é abandonada em favor de um Michael Myers à altura dos melhores momentos da série, maior e mais ameaçador do que o original (graças, em boa parte, aos dois metros de altura de Tyler Mane, vedeta recrutada no mundo da luta livre) e tão impassível e imparável como sempre. Só por este último terço, o novo Halloween merecerá atenção, mas, provavelmente, apenas dos apreciadores mais fervorosos do género.

Classificação:

Topo

O Dia em que Ana Bolena Perdeu a Cabeça

(Duas Irmãs, Um Rei)

Renato Carreira

Por cima:

- A reconstituição da corte de Henrique VIII, o guarda-roupa (cheira sempre a esturro quando as primeiras qualidades atribuídas a um filme são os cenários e o guarda-roupa... a fotografia também não é má).

- Natalie Portman tem os seus momentos e o elenco secundário consegue ser bastante competente.

Por baixo:

- Scarlett Johansson é um pau de dois bicos (e não se veja qualquer intenção brejeira na referência aos dois bicos). Quando o papel lhe é feito de encomenda, consegue ser estrondosa. Quando tentam encaixá-la em papéis que exigem maior distanciamento da sua persona de ruiva fatal pós-moderna, é quase sempre um desastre. É o caso. Não há paciência para a irmãzinha piedosa e passiva que resiste a todas as maldades com olhos de carneiro mal morto e beicinho. A meio do filme, começa a torcer-se para que lhe aconteça alguma coisa terrível.

- Eric Bana não está inteiramente desajustado no papel de Henrique VIII e consegue ter a presença que se exigia, mesmo sem a corpulência do original. Só que vai longe demais. Quando um actor faz de Hulk num filme, tem de arranjar mais do que uma maneira de exprimir tensão e fúria porque, se começa a arregalar os olhos e a bufar, os espectadores esperarão que se transforme num monstro verde.

- A pompa excessiva e completamente forçada em diálogos banais. É um defeito habitual em dramas históricos. Os actores enchem muito o peito, endireitam o pescoço e falam como se declamassem de cima de um palanque. Depois, abrem a boca e a montanha pariu um rato.

Classificação:

Topo

Provavelmente, o filme mais idiota do ano

(10.000 A.C.)

Renato Carreira

Por cima:

- Os mamutes, tigres dente-de-sabre e restantes bestas pré-históricas.

- Assim de repente, não estou a ver mais nada.

Por baixo:

- O filme começa numa paisagem montanhosa onde uma tribo primitiva se dedica a caçar mamutes e onde, a dada altura, começa a nevar. A seguir, os protagonistas lançam-se em perseguição de um grupo desconhecido de cavaleiros e chegam a uma selva tropical, antecâmara de uma região desértica habitada por homens negros. Depois de um desentendimento inicial, aliam-se a estes e combatem um povo pérfido que habita no deserto, junto à margem de um grande rio, e que ocupa o seu tempo com a construção de pirâmides. Mas não são egípcios, calma! Porque isso não faria sentido nenhum. São gente de origem misteriosa que poderá ter chegado àquelas paragens pelo mar, depois de a sua terra se ter afundado num cataclismo. E se, depois disto tudo, não se sentir uma vontade irreprimível de dizer palavrões, é porque se está em morte celebral.

-Haverá algum motivo para os caçadores de mamutes falarem como índios de westerns de meia-tigela? "Quando a grande luz do céu chegar a meio da sua viagem, o nosso povo caçará o seu último nik-nak!" Será pronúncia de cavernícola?

Classificação:

Topo

O Coração das Trevas

(John Rambo)

André

No meio das paisagens bucólicas e pastoris da Birmânia existe um coração maior que o mundo. Porque há coisas que nunca mudam. John Rambo não resiste a um pedido de ajuda. Venha ele duma loira da Igreja Ortodoxa Envangelista do Sétimo Dia ou de um birmanês sem uma perna. “Então mas o Nélson joga na Birmânia?”. Sim, digou eu. Faz lá uns biscates, nos tempos livres. E o governo de lá é assim mais ou menos como o Paulo Paraty. Finge que não vê para depois ter direito a uns pneus recauchutados e uns garrafões de vinho tinto.

John Rambo está reformado. Sabemos que está mudado. Percebe-se quando se ouve a música do Rambo I tocada numa bucólica e pastoril flauta de pã. Tem um bote (bucólico e pastoril), com um telhado de colmo, apenas bucólico. Faz pesca desportiva com um panamá cor de amêndoa, apenas pastoril, apanha cobras com as mãos for the fun of it e vende-as a um tipo que faz umas cenas que não se percebe bem e que um gajo pensa “vê-se mesmo que isto era mesmo só para meterem o Rambo a apanhar cobras com as mãos”, vive pacífica e bucolicamente nas paisagens pastoris da Birmânia. Está em paz, uma paz pastoril e algo bucólica. Com ele próprio, com o mundo, com o Coronel Trautman. Isso de fazer “coisas à Rambo” era dantes. Era como na escola. Quando se ia “à Rambo” fodia-se logo. “Fostes à Rambo fodestes-te”, dizia o Chico. O Sacana uma vez “foi à Rambo” ao Cão e levou com um saco de ginástica na fronha e ficou sem dois dentes da frente.

Ou quando o Barroso, que era surdo e uma vez a Almôndega que era professora de português lhe perguntou “és surdo ou quê?”, nos levou a fazer paintball a todos (isto antes de ele e o Seiça se tornarem inimigos porque o Seiça foi operado ao cu e quando ainda tinha os pontos foi apanhado a mexer no estojo do Barroso que lhe “foi à Rambo” com um biqueiro na peida que lá foram os pontos e depois teve de andar com um penso higiénico masculino durante o terceiro período – ou um european menstrual pads, como se diz na América) ali ao pé de Sintra e eu estava sempre a perder porque estava sempre a ir “à Rambo”. “Ir à Rambo” nunca era coisa boa. É só para quem sabe. Só o Rambo sabe ir à Rambo, and gets away with it. Talvez o Chuck Norris também vá à Rambo. Ou se calhar vai só à Chuck Norris. Mas ir à Chuck Norris nunca pegou. Quando muito um roundhouse kick. Mas isso de ir ir ir é só mesmo à Rambo.

O Rambo, no início, está-se meio a cagar. E diz coisas como “go home” ou “fuck the world”. Mas há uma réstia de bondade. Como havia no Darth Vader e até mesmo no Vasco Pulido Valente. Se se olhar bem de perto. Com um microscópio. E um tubo daqueles de fazer cenas com o esperma e óvulos e isso como se vê naquelas notícias sobre ejaculação precoce ou clonagem. Passa-se ainda algum tempo antes de encarnar a personagem. Primeiro são uns que aparecem e estão assim meio com cagufa de mandar uns tiros e um gajo topa logo. Mas o Rambo aparece com um arco e uma flecha e avia logo uns seis birmaneses de metralhadora. Sem grande esforço. Just keeping it cool. Os outros que estavam assim meio cagados começam a ver que o Rambo afinal é mesmo o que fez o Rambo I, até porque um deles é chinês e os chineses são assim meio cagões. Gostam é de chips e de bukkake. Consta que havia uma actriz americana que espalhava esperma todas as noites na cara porque achava que ajudava a manter a pele jovem. Já tentei convencer algumas miúdas disto, mas sempre em vão.

A cena de se ser velho é fodida. Eu se pudesse nunca seria velho. De me enrugar e ficar tipo o Kevin Costner que depois um gajo vai ao cinema e diz: “meu, isto era a cara do Kevin Costner ou era uma sandes de atum embrulhada em papel de alumínio com uma etiqueta a dizer Kevin Costner porque depois ele podia não gostar de maionese e eles vão todos à praia e marcaram as sandes para depois não terem de estar a desembrulhar e a afastar as fatias de pão para ver qual é a de quem”. Ou com a pele dos braços pendurada e a escorrer e a poder ficar presa nas portas dos elevadores com vontade de chegar lá e passar a ferro e prender com uma mola e esperar que se aguente. Ou então ter de usar ligaduras daquelas que não servem de nada a não ser para meter as veias e as varizes para dentro e evitar que expludam no Minipreço, na Loja do Cidadão ou na Segurança Social.

Mas se chegar aos sessenta espero chegar como o Rambo. Um gajo olha e diz “nada mau, for an old fart”. É estrangeiro. Significa “nada mau, para um peido velho”. É mais uma maneira de insultar velhos. Tenho-lhes cá um pó.

Depois juntam-se todos em grupo, como os escuteiros mas sem os calçõezinhos homossexuais e vão pelo meio da selva a cantar e a dançar até ao acampamento dos maus.
Como isto se passa lá num daqueles países onde é tudo barracos de palha e o comer é sempre arroz embrulhado em folhas de árvore e gajas sem soutien, tipo Gaia mas sem os fatos de treino, e que um gajo vê e pensa “what the fuck?”, num mapa provavelmente inventado ali a seguir à fronteira da Turquia e do Canadá, um bocadinho a sul de Paris, há sempre um tipo com uns Ray Ban que vai e decide matar toda a gente. Ter uns Ray Ban é um free pass para muitas coisas. Um gajo mesmo que apanhe o filme a meio olha e vê logo que o tipo dos Ray Ban é que manda naquilo tudo. Não é cá um chapéu ou umas estrelas. Eu cá, a ser morto a tiro, só mesmo por um tipo que transpirasse coolness com uns Ray Ban, mas ou aqueles de aviador ou outros mas duma colecção fixe.

Depois há daquelas cenas que costumam acontecer nesses países para essa zona, e em Gaia, absinto e violações em grupo. E depois quando se vai a ver já eles fugiram todos. E vão atrás deles num jipe e de Ray Ban, mas quer-me parecer que já não é o mesmo tipo que usa os Ray Ban no início. Distraí-me por momentos e perdi-me na complexidade do enredo. Depois tem uma parte muito bonita de luz, música e cor com muitos tiros e muitos membros a serem despegados de corpos de chineses ou birmaneses ou pessoas de Gaia que se perderam a caminho do “shopping”. Com o Rambo no cimo de uma colina bem pastoril montado numa metralhadora daquelas que um gajo pode comprar e meter assim num jipe a dar cabo dos birmaneses que faltam, que também não eram assim tantos porque o orçamento era reduzido e quer-me parecer que alguns deles morreram várias vezes.
No fim, percebe-se que ele é capaz de ter deslocado o ombro. Com o esforço. Afinal foi uma hora e meia de cenas à Rambo. E termina com um maravilhoso plano-sequência do John Rambo a percorrer o trilho de terra que o leva a casa do pai. Um enigmático R. Rambo.

Classificação:

Topo