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O Coração da Imagem
(Speed Racer )
Gonçalo
Trindade

Nunca houve nada como Speed Racer. É provável
que jamais volte a haver algo como Speed Racer. Os irmãos
Wachowski fizeram aqui algo de verdadeiramente incrível,
um filme único, uma verdadeira delícia visual, que
prende o espectador do início ao fim com as suas constantes
imagens em movimento, de uma energia e espectacularidade verdadeiramente
notável. Mas aquilo que é talvez o mais notável
em Speed Racer, aquilo que o torna o grande filme que é (será provavelmente
dos melhores que verei este ano), é o facto de visualmente
ser incrível, sim... mas a história tem um coração
enorme. A corrida final tanto delicia os olhos como coloca o espectador
a torcer pelo herói, comovendo-o com a sua história
e as suas personagens. O visual é incrível, sim...
mas também o é o coração desta maravilhosa
história sobre a importância da família, o
poder da arte acima da indústria, e a descoberta de objectivo
pela qual passam todos os jovens. As suas personagens não
sao simples "objectos", simples dispositivos feitos para
dar uma história a um filme ao qual só interesa
o visual. Aqui as personagens são, de facto, personagens...
com profundidade, humanidade... e o visual do filme alia-se ao
coração da história. Completam-se.
Speed Racer é, pois, tecnicamente magnífico (desde
o bom trabalho de Hirsch até à bela banda-sonora
de Giacchino), único (confirmação da mente
visionária dos Wachowski... já mencionei que sou
dos poucos que adorou toda a trilogia Matrix?), tem um grande e
belo coração e é, quanto a mim, dos filmes
que mais recordarei com afecto quando este ano cinematográfico
tiver passado. Não sei se será o melhor blockbuster
do ano (veremos no final do Verão... e ainda vamos ter o
Wall-E...), mas será sem dúvida, no mínimo
dos mínimos, o mais único e o mais ambicioso.
Classificação: 

O Panda
do Kung Fu
Renato
Carreira

Um dos problemas das grandes produções
de animação
é que, por vezes, tamanha é a preocupação
em aplicar ao máximo todas as potencialidades da tecnologia
e em criar bonecos enternecedores que darão brindes chamativos
para os Happy Meals da McDonald's, que se esquece o resto. E o
resto será uma história com grau de complexidade
que consiga agradar a espectadores de idade superior a três
anos, um enredo minimamente racional, personagens com alguma profundidade
e situações que suscitem uma gargalhada ocasional
e não apenas gemidos de "oooooooooh, que fofinho".
Felizmente, O Panda do Kung Fu tem tudo isto e também
o tal aproveitamento das imensas potencialidades tecnológicas
ao dispor dos animadores dos nossos dias. Jack Black (a voz do
panda Po) e Dustin Hoffman (a voz do mestre Shifu assumem o essencial
da empreitada, secundados por um elenco de peso (Angelina Jolie,
Jackie Chan, Lucy Liu e os comediantes Seth Rogen e David Cross),
ainda que devam ter sido pagos à palavra, visto que nenhum
deles diz mais do que meia dúzia de frases durante o filme
todo. Quem optar pela versão dobrada, poderá deliciar-se
com as vozes de Marco Horácio, José Raposo, Fernanda
Serrano e Joaquim de Almeida. No fundo, é como comparar
uma ária de Verdi a um peido.
Classificação: 
Topo

Brincadeiras Perigosas
Renato
Carreira

Qual será o propósito de pegar num
dos melhores e mais originais filmes da década de noventa
e fazer um remake, passados apenas onze anos, assinado pelo mesmo
realizador, com a mesma história, a mesma sucessão
de eventos (ao milímetro), os mesmos diálogos, os mesmos
cenários, os mesmos planos, a mesma banda sonora, o mesmo
guarda-roupa e actores parecidos? As diferenças mais notórias
(salvo falhas de memória) será a consola PSP que o
filho do casal segura no início do filme e que ainda não
existia em 97, o telemóvel mais moderno e o cão da
família que, se bem me lembro, era um pastor alemão
no original. Ah. E, claro, o facto de o filme se passar nos Estados
Unidos e não na Alemanha (ainda que a paisagem envolvente
seja uma cópia quase perfeita) e de ser protagonizado por
actores americanos e não por actores alemães e austríacos,
sendo que os primeiros, por maiores que sejam os seus méritos,
abdicam de representar para arremedar o elenco original, tão
próxima é a colagem. Ainda que não se possa
dizer que é um filme mau, mesmo sabendo a comida requentada
para quem conhece o original, mantém-se a incredulidade. Porquê?
Apenas porque alguém achou que o público americano é alérgico
a filmes falados noutras línguas que não a sua e entendeu
que deviam ter oportunidade de ver este? Perfeitamente aceitável.
Só que nós não temos nada a ver com o assunto.
Classificação: 
Topo

Houdini
- O Último Grande Mágico
Renato Carreira

O
Houdini de Death Defying Acts é um homem que se
aborrece facilmente. Viajar constantemente pelo mundo, ser acorrentado
pelos pés debaixo de água ou com um colete de forças
vestido, emergindo triunfante como o maior escapista de todos os
tempos acaba por cansar e não admira que o pobre
homem procurasse distrair a mente com outros assuntos menos aborrecidos.
Por exemplo, com a ambição de provar ou negar a possibilidade
de contactar o espírito dos mortos através da oferta
de uma recompensa aos médiuns que a isso se prestassem.
Para esse fim, recorre ao estratagema de encerrar num cofre um
envelope lacrado contendo as últimas palavras que a sua
mãe lhe dirigiu e esperando que alguém lhas consiga
repetir. A candidata seleccionada para a proeza é Mary McGarvie
(Catherine Zeta-Jones), uma vidente, embusteira e dançarina
exótica, que costuma actuar em palcos de variedades com
a filha Benji (Saoirse Ronan) como assistente. Estariam reunidas
as condições para um thriller pseudo-sobrenatural
emocionante, uma espécie de novo The Prestige,
mas Gillian Armstrong não se quis ficar por aí. O
ilusionista obcecado pela mãezinha e a vigarista acabam
por se apaixonar e os diálogos melosos sucedem-se com a
rapidez de truques de mão. Guy Pearce é competente
como Houdini, sem fazer esquecer o desgraçado protagonista
de Memento ou o/a Felicia de Priscilla, Rainha do
Deserto. Catherine Zeta-Jones está perfeita no papel
de Catherine Zeta-Jones, mesmo com o sotaque escocês, e a
jovem Saoirse Ronan, que tão bem esteve em Expiação,
consegue irritar apenas ligeiramente como uma espécie de
Oliver Twist de saias (mas com calções e sem ser órfã).
Classificação: 
Topo

Mal
habituados
(O Acontecimento)
Renato
Carreira

M. Night Shyamalan é das presas mais apetecidas
pela crítica cinematográfica americana (e pela crítica
internacional, que segue a primeira). O motivo é compreensível.
Depois de dois ensaios obscuros, o realizador completou trinta anos
de idade com um dos filmes mais cativantes das últimas décadas
(O Sexto Sentido, obviamente). O trabalho seguinte (O Protegido),
com a responsabilidade de confirmar ou negar o talento prometido,
conseguiu satisfazer os fãs conquistados e, depois da estreia
de Sinais, começou a falar-se num novo Hitchcock. Mas o estado
de graça não podia durar para sempre. Com A Vila e
A Senhora da Água, títulos inferiores mas ainda muito
acima da média, o veneno destilado seria suficiente para levar
realizadores menos confiantes a mudar de ramo. Shyamalan não
o fez e traz-nos agora O Acontecimento. Ainda que os momentos de
suspense continuem presentes, o final não deixará ninguém
boquiaberto e não será certamente filme capaz de calar
quem lhe tem apontado o dedo. No entanto, os seus maiores defeitos
são essencialmente dois: ser uma obra mediana de um grande
realizador e não ser O Sexto Sentido. Quem conseguir viver
com isso, não dará o preço do bilhete por mal
empregue.
Classificação: 
Topo

Ele vai-te morder...
olha, já mordeu!
([REC])
Ana Trindade

[REC] é um bom filme de terror! Repete o
registo «agarrei na câmara e tudo aconteceu à minha
volta». Apesar de, em alguns momentos, termos a noção
de que o enredo parece familiar ("Olha lá, isto não
parece o Resident Evil?") e de algumas sequências serem
mais do que esperadas ("É que estava mesmo a ver-se
que era ela"), ninguém discute que ao mesmo tempo sentimos
a séria ameaça de ser mordidos a qualquer instante
("Importas-te de parar de dar saltos na cadeira?!").
TUdo se passa num típico edifício de Barcelona, muito
de noite. Quando deveriam estar todos a dormir, uma velha grita desalmadamente.
Alguém refere que ela mora com gatos, se bem que não
se avista um ao longo de todo o filme.
Depois disto, é um desenrolar rápido de mordidelas,
puxões, cacetadas, marretadas, corridas escadas acima e corridas
escadas abaixo.
No fim, descobre-se que a culpa de toda esta azáfama é de
uma família de portugueses.
[REC] arrecadou o Grande Prémio da última edição
do Fantasporto. E pelos saltos na cadeira - os meus sustos e os dos
outros - leva uma salva de palmas. Há muito que não
se via um filme de terror assim.
Classificação: 
Topo

Então
Onde Estás?
(Não Estou Aí)
Renato
Carreira

Em Velvet Goldmine, Todd Haynes pegou em
David Bowie (o mito e não o cantor real), torceu-o, retorceu-o,
ajeitou as pontas e criou uma das biografias cinematográficas
mais originais de sempre, temperada com uma pitada justa de ressentimento
de fã. Não Estou Aí segue de forma
quase exacta a mesma receita, com a nuance da multiplicação
de pontos de vista e a escolha feliz de actores inesperados para
interpretar facetas diversas do artista. Ainda que, à primeira
vista, saiba a refeição requentada, não é a
reutilização do molde que torna o filme menos bom.
Apenas se estranha o prolongamento exagerado de alguns segmentos,
que nem o excelente desempenho do elenco conseguirá justificar.
Como não há duas sem três e porque parece que
o realizador faz questão de nos reinventar os grandes nomes
da música, ficamos à espera do senhor que se segue.
Classificação: 
Topo

"I need
the old Blade Runner. I need your magic"
(Blade Runner)
Gonçalo
Trindade

Há certos filmes que, quando vistos numa sala de cinema,
são uma experiência verdadeiramente mágica.
Filmes que estimulam tanto a vista como o coração,
que crescem e penetram no espectador quando vistos naquele grande
ecrã.
Ver "Blade Runner" numa sala de cinema foi, de facto,
uma experiência espectacular. Das melhores que jamais tive
(juntamente com o "The Fountain", "Citizen Kane",
e "Os Sete Samurais", entre outros). Vi-o pela primeira
vez num VHS de qualidade duvidosa, na versão Director's
Cut, e adorei. Agora, visto numa sala de cinema, adoro-o ainda
mais. Não ficou um filme melhor (não notei assim
tantas mudanças, neste "The Final Cut"), apenas
o experienciei de forma diferente. E apercebo-me agora, mais
que nunca, da forma incrível como a sua qualidade perdurou
ao longo do tempo. Continua uma Obra-Prima.
E será, para sempre, uma Obra-Prima. Jamais haverá algo
igual. Jamais será um filme esquecido... jamais será como "todos
aqueles momentos, perdidos no tempo... como lágrimas na
chuva" (dos melhores momentos cinematográficos que
jamais vi até hoje).
Uma experiência simplesmente espectacular, e é inadmíssivel
que exista apenas UMA cópia para todo o país.
Classificação: 
Topo

Mentir
com todos os Dentes
(Entrevista)
Ana Trindade

Toda a acção se passa num raio de
quatro quarteirões, com apenas três mudanças
de cenários. O ambiente do filme é intenso e explora
a capacidade dos dois intervenientes mentirem com quantos dentes
têm na boca.
Esta é a história de um jornalista à beira
do colapso profissional que ainda se julga importante e não
percebe porque lhe calhou a aborrecida missão de entrevistar
uma actriz de série B "best known for who she sleeps
with".
Quem mais tenta enganar, acaba enganado - só tem
noção do que lhe aconteceu a poucos segundos do rolar
dos créditos finais.
Para quem, como eu, pensava na Sienna Miller ‘as
best known for who she sleept with’, pelos anúncios
das calças não sei do quê e pelo pequeno papel
no Stardust, este filme é uma surpresa. Assim como foi uma
surpresa quando se descalça e revela as grossas meias brancas… reforço
grossas.
Pessoalmente tenho uma certa afinidade com o Mr.Pink,
protagonista e realizador. Sempre gostei dele. Está no meu
coração.
Como já referi, é um filme intenso.
Exige um certo grau de atenção ao enredo. Não
me escapou o pormenor do quarto sanitário decorado com pinups.
«Entrevista» é o primeiro dos
filmes do projecto Triple Theo.
Resumindo este projecto: Theo Van Gogh tem uma ideia.
Theo Van Gogh é assassinado. Sem Theo Van Gogh ideia não
avança. Produtor e parceiro avançam com ideia. Ideia
avança com convites a realizadores: Steve Buscemi, Stanley
Tucci, John Turturro. Steve Buscemi já está, Stanley
Tucci é o próximo. John Turturro vai começar
a gravar em breve.
Sim, Theo van Gogh partilha a árvore genealógica
com o Van Gogh que pintava.
Classificação: 
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Mantenham-se
bem afastados
(O Tesouro Encalhado)
Gonçalo
Trindade

Sou um jovem de 18 anos. Como qualquer jovem
de 18 anos, dou-me com outros jovens rapazes e raparigas de 18
anos. E se há algo que descobri, é que hoje em dia
jovens da minha idade não... não levam o cinema muito
a sério. Não sabem quem foi Orson Welles, não
sabem quem foi Truffaut... simplesmente vão ao cinema para
passar um bom bocado. Ora bem... é por isso normal que,
por vezes, quando ocorrem saídas de grupo, os meus jovens
amigos escolham filmes que... enfim, que não são
propriamente de boa qualidade. E eu até nem me importo...
muito. Também posso ir ao cinema para me divertir um bocado,
para desligar o cérebro. Afinal de contas, eu sou o tipo
que até gostou do "Transformers" e do "Hitman" (...e
subitamente, o blogue perdeu a pouca credibilidade que tinha...).
Mas meus amigos... desta vez foi indescritível. Previsível,
sem a mínima graça, desprezível... o cérebro
nem liga nem desliga, fica numa espécie de coma. Sejamos
honestos, falar mal de um filme é bom. Dá prazer.
Mas eu até me considero uma pessoa justa, e falo mal de
um filme apenas quando considero o filme verdadeiramente... mau.
E este é um dos casos.
"Fool's Gold" é uma "coisa". É...
enfim, é mesmo uma "coisa". Além de ser
possivelmente o pior filme que jamais vi numa sala de cinema (ainda
que raramente veja maus filmes numa sala de cinema... tento ser
selectivo, que o dinheiro e tempo escasseiam). Talvez seja eu que
não tenha sentido de humor, não sei. Talvez tenha
alguma coisa contra comédias românticas... ou contra
o Matthew Mc-qualquer coisa, não sei. Mas houve mesmo alturas
em que pensei em cometer suicídio com a palhinha do copo
da pepsi.
"Fool's Gold" é dinheiro. Pega em todos os clichés
existentes, e junta-os a todos num filme feito sem o mínimo
amor. Até os próprios actores parecem lá estar
mesmo só pelo dinheiro (oh Donald Sutherland... estavas
assim tão desesperado? Enfim, pelo menos não és
como o John Voight que entrou no "Bratz"...).
Não tem graça. Não capta minimamente a atenção.
Não tem nenhum pormenor interessante que o salve. Nenhuma
cena minimamente engraçada ou interessante. É um
desastre. Um verdadeiro desastre. Péssimo. Além de
péssimo. Se o Uwe Boll tivesse um irmão atrasado
mental, e se esse irmão começasse a fazer comédias
românticas... um dos seus filmes seria certamente este.
"Fool's Gold" não é um filme. É...
não sei, é outra coisa qualquer.
E lição aprendida: em saídas de grupo, devo
bater mais o pé na escolha do filme. Ainda que desta vez
não podia fazer grande coisa... usaram o trunfo do "Gonçalo
cala-te, que foi por tua causa que fomos todos ao cinema ver o "A
Bússola Dourada"...". Mas ainda assim, esse filme
foi bem melhorzinho...
E já agora... e vocês? Qual foi
o pior filme que viram numa destas saídas em grupo?
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Topo

Michael
Myers 2.1
(Halloween)
Renato
Carreira

Há dois filmes diferentes nesta nova recriaçao
da saga Halloween. Os dois primeiros terços são
preenchidos com a tentativa frustrada de Rob Zombie, metaleiro consagrado
e visionário do horror, de abordar a infância de um
dos assassinos psicopatas mais perturbadores do grande ecrã e
de justificar de alguma forma as suas acções com um
enredo previsível e diálogos banais. No terço
final, a abordagem psicológica é abandonada em favor
de um Michael Myers à altura dos melhores momentos da série,
maior e mais ameaçador do que o original (graças, em
boa parte, aos dois metros de altura de Tyler Mane, vedeta recrutada
no mundo da luta livre) e tão impassível e imparável
como sempre. Só por este último terço, o novo Halloween merecerá
atenção, mas, provavelmente, apenas dos apreciadores
mais fervorosos do género.
Classificação: 
Topo

O
Dia em que Ana Bolena Perdeu a Cabeça
(Duas Irmãs, Um Rei)
Renato
Carreira

Por cima:
- A reconstituição da corte de Henrique
VIII, o guarda-roupa (cheira sempre a esturro quando as primeiras
qualidades atribuídas a um filme são os cenários
e o guarda-roupa... a fotografia também não
é má).
- Natalie Portman tem os seus momentos e o elenco
secundário consegue ser bastante competente.
Por baixo:
- Scarlett Johansson é um pau de dois bicos
(e não se veja qualquer intenção brejeira na
referência aos dois bicos). Quando o papel lhe é feito
de encomenda, consegue ser estrondosa. Quando tentam encaixá-la
em papéis que exigem maior distanciamento da sua persona de
ruiva fatal pós-moderna, é quase sempre um desastre. É o
caso. Não há
paciência para a irmãzinha piedosa e passiva que resiste
a todas as maldades com olhos de carneiro mal morto e beicinho. A
meio do filme, começa a torcer-se para que lhe aconteça
alguma coisa terrível.
- Eric Bana não está inteiramente
desajustado no papel de Henrique VIII e consegue ter a presença
que se exigia, mesmo sem a corpulência do original. Só que
vai longe demais. Quando um actor faz de Hulk num filme, tem de arranjar
mais do que uma maneira de exprimir tensão e fúria
porque, se começa a arregalar os olhos e a bufar, os espectadores
esperarão que se transforme num monstro verde.
- A pompa excessiva e completamente forçada
em diálogos banais. É um defeito habitual em dramas
históricos. Os actores enchem muito o peito, endireitam o
pescoço e falam como se declamassem de cima de um palanque.
Depois, abrem a boca e a montanha pariu um rato.
Classificação: 
Topo

Provavelmente,
o filme mais idiota do ano
(10.000 A.C.)
Renato
Carreira

Por cima:
- Os mamutes, tigres dente-de-sabre e restantes
bestas pré-históricas.
- Assim de repente, não estou a ver mais
nada.
Por baixo:
- O filme começa numa paisagem montanhosa
onde uma tribo primitiva se dedica a caçar mamutes e onde,
a dada altura, começa a nevar. A seguir, os protagonistas
lançam-se em perseguição de um grupo desconhecido
de cavaleiros e chegam a uma selva tropical, antecâmara de
uma região desértica habitada por homens negros. Depois
de um desentendimento inicial, aliam-se a estes e combatem um povo
pérfido que habita no deserto, junto à margem de um
grande rio, e que ocupa o seu tempo com a construção
de pirâmides. Mas não são egípcios, calma!
Porque isso não faria sentido nenhum. São gente de
origem misteriosa que poderá
ter chegado àquelas paragens pelo mar, depois de a sua terra
se ter afundado num cataclismo. E se, depois disto tudo, não
se sentir uma vontade irreprimível de dizer palavrões, é porque
se está em morte celebral.
-Haverá algum motivo para os caçadores
de mamutes falarem como índios de westerns de meia-tigela? "Quando
a grande luz do céu chegar a meio da sua viagem, o nosso povo
caçará o seu último nik-nak!" Será pronúncia
de cavernícola?
Classificação: 
Topo

O
Coração das Trevas
(John Rambo)
André

No meio das paisagens bucólicas e pastoris
da Birmânia existe um coração maior que o mundo.
Porque há coisas que nunca mudam. John Rambo não resiste
a um pedido de ajuda. Venha ele duma loira da Igreja Ortodoxa Envangelista
do Sétimo Dia ou de um birmanês sem uma perna. “Então
mas o Nélson joga na Birmânia?”. Sim, digou eu.
Faz lá uns biscates, nos tempos livres. E o governo de lá é assim
mais ou menos como o Paulo Paraty. Finge que não vê para
depois ter direito a uns pneus recauchutados e uns garrafões
de vinho tinto.
John Rambo está reformado. Sabemos que está mudado.
Percebe-se quando se ouve a música do Rambo I tocada numa
bucólica e pastoril flauta de pã. Tem um bote (bucólico
e pastoril), com um telhado de colmo, apenas bucólico. Faz
pesca desportiva com um panamá cor de amêndoa, apenas
pastoril, apanha cobras com as mãos for the fun of it e vende-as
a um tipo que faz umas cenas que não se percebe bem e que
um gajo pensa “vê-se mesmo que isto era mesmo só para
meterem o Rambo a apanhar cobras com as mãos”, vive
pacífica e bucolicamente nas paisagens pastoris da Birmânia.
Está em paz, uma paz pastoril e algo bucólica. Com
ele próprio, com o mundo, com o Coronel Trautman. Isso de
fazer “coisas à Rambo” era dantes. Era como na
escola. Quando se ia “à Rambo” fodia-se logo. “Fostes à Rambo
fodestes-te”, dizia o Chico. O Sacana uma vez “foi à Rambo” ao
Cão e levou com um saco de ginástica na fronha e ficou
sem dois dentes da frente.
Ou quando o Barroso, que era surdo e uma vez a Almôndega
que era professora de português lhe perguntou “és
surdo ou quê?”, nos levou a fazer paintball a todos (isto
antes de ele e o Seiça se tornarem inimigos porque o Seiça
foi operado ao cu e quando ainda tinha os pontos foi apanhado a mexer
no estojo do Barroso que lhe “foi à Rambo” com
um biqueiro na peida que lá foram os pontos e depois teve
de andar com um penso higiénico masculino durante o terceiro
período – ou um european menstrual pads, como se diz
na América) ali ao pé de Sintra e eu estava sempre
a perder porque estava sempre a ir “à Rambo”. “Ir à Rambo” nunca
era coisa boa. É só para quem sabe. Só o Rambo
sabe ir à Rambo, and gets away with it. Talvez o Chuck Norris
também vá à Rambo. Ou se calhar vai só à Chuck
Norris. Mas ir à Chuck Norris nunca pegou. Quando muito um
roundhouse kick. Mas isso de ir ir ir é só mesmo à Rambo.
O Rambo, no início, está-se meio a
cagar. E diz coisas como “go home” ou “fuck the
world”. Mas há uma réstia de bondade. Como havia
no Darth Vader e até mesmo no Vasco Pulido Valente. Se se
olhar bem de perto. Com um microscópio. E um tubo daqueles
de fazer cenas com o esperma e óvulos e isso como se vê naquelas
notícias sobre ejaculação precoce ou clonagem.
Passa-se ainda algum tempo antes de encarnar a personagem. Primeiro
são uns que aparecem e estão assim meio com cagufa
de mandar uns tiros e um gajo topa logo. Mas o Rambo aparece com
um arco e uma flecha e avia logo uns seis birmaneses de metralhadora.
Sem grande esforço. Just keeping it cool. Os outros que estavam
assim meio cagados começam a ver que o Rambo afinal é mesmo
o que fez o Rambo I, até porque um deles é chinês
e os chineses são assim meio cagões. Gostam é de
chips e de bukkake. Consta que havia uma actriz americana que espalhava
esperma todas as noites na cara porque achava que ajudava a manter
a pele jovem. Já tentei convencer algumas miúdas disto,
mas sempre em vão.
A cena de se ser velho é fodida. Eu se pudesse
nunca seria velho. De me enrugar e ficar tipo o Kevin Costner que
depois um gajo vai ao cinema e diz: “meu, isto era a cara do
Kevin Costner ou era uma sandes de atum embrulhada em papel de alumínio
com uma etiqueta a dizer Kevin Costner porque depois ele podia não
gostar de maionese e eles vão todos à praia e marcaram
as sandes para depois não terem de estar a desembrulhar e
a afastar as fatias de pão para ver qual é a de quem”.
Ou com a pele dos braços pendurada e a escorrer e a poder
ficar presa nas portas dos elevadores com vontade de chegar lá e
passar a ferro e prender com uma mola e esperar que se aguente. Ou
então ter de usar ligaduras daquelas que não servem
de nada a não ser para meter as veias e as varizes para dentro
e evitar que expludam no Minipreço, na Loja do Cidadão
ou na Segurança Social.
Mas se chegar aos sessenta espero chegar como o
Rambo. Um gajo olha e diz “nada mau, for an old fart”. É estrangeiro.
Significa “nada mau, para um peido velho”. É mais
uma maneira de insultar velhos. Tenho-lhes cá um pó.
Depois juntam-se todos em grupo, como os escuteiros
mas sem os calçõezinhos homossexuais e vão pelo
meio da selva a cantar e a dançar até ao acampamento
dos maus.
Como isto se passa lá num daqueles países onde é tudo
barracos de palha e o comer é sempre arroz embrulhado em folhas
de árvore e gajas sem soutien, tipo Gaia mas sem os fatos
de treino, e que um gajo vê e pensa “what the fuck?”,
num mapa provavelmente inventado ali a seguir à fronteira
da Turquia e do Canadá, um bocadinho a sul de Paris, há sempre
um tipo com uns Ray Ban que vai e decide matar toda a gente. Ter
uns Ray Ban é um free pass para muitas coisas. Um gajo mesmo
que apanhe o filme a meio olha e vê logo que o tipo dos Ray
Ban é que manda naquilo tudo. Não é cá um
chapéu ou umas estrelas. Eu cá, a ser morto a tiro,
só mesmo por um tipo que transpirasse coolness com uns Ray
Ban, mas ou aqueles de aviador ou outros mas duma colecção
fixe.
Depois há daquelas cenas que costumam acontecer nesses países
para essa zona, e em Gaia, absinto e violações em grupo.
E depois quando se vai a ver já eles fugiram todos. E vão
atrás deles num jipe e de Ray Ban, mas quer-me parecer que
já não é o mesmo tipo que usa os Ray Ban no
início. Distraí-me por momentos e perdi-me na complexidade
do enredo. Depois tem uma parte muito bonita de luz, música
e cor com muitos tiros e muitos membros a serem despegados de corpos
de chineses ou birmaneses ou pessoas de Gaia que se perderam a caminho
do “shopping”. Com o Rambo no cimo de uma colina bem
pastoril montado numa metralhadora daquelas que um gajo pode comprar
e meter assim num jipe a dar cabo dos birmaneses que faltam, que
também não eram assim tantos porque o orçamento
era reduzido e quer-me parecer que alguns deles morreram várias
vezes.
No fim, percebe-se que ele é capaz de ter deslocado o ombro.
Com o esforço. Afinal foi uma hora e meia de cenas à Rambo.
E termina com um maravilhoso plano-sequência do John Rambo
a percorrer o trilho de terra que o leva a casa do pai. Um enigmático
R. Rambo.
Classificação: 
Topo

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